Se é dos que imaginam a obra de Rafael Toral como uma série de peças áridas de ruído insolúvel, mergulhe no absorvente Space e descubra outra coisa. Os seus três longos movimentos partem de simulacros de silêncio cósmico, silêncio judiciosamente perfurado por manifestações electrónicas intermitentes que evocam o modernismo à vez promissor, perturbante e remoto de uma estação polar árctica nos anos 1950. A última faixa acrescenta a trompete de Sei Miguel e o trombone de Fala Mariam para passar uma rasante a um jazz sem bússola (elogio). De todo o álbum solta-se uma estranha, esparsa mas bem-vinda ternura, coisa simultaneamente táctil e alienígena que, com o tempo, se infiltra pele adentro.
Miguel Dias
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