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críticas

artigos e entrevistas

 

 

aeriola frequency

Todos os espaços têm uma característica acústica, e a ressonância tem um papel importante na sua forma e definição. Há frequências de ressonância práticamente onde quer que vamos e na maior parte das vezes não damos por elas. Por outro lado, a nossa experiência do mundo é, numa medida substancial, através de meios electrónicos. E a ressonância é também um atributo dos circuitos electrónicos, do mesmo modo alheios à nossa atenção. Lembrando alguns exemplos de sons que vivem connosco, os osciladores (um elemento básico dos sintetizadores) e os equalizadores (integrados em práticamente todas as mesas de mistura de som no mundo) são dispositivos de ressonância. Sintonizar um rádio é, em muitos casos, simplesmente seleccionar uma frequência de ressonância. A maior parte dos sons produzidos pela tecnologia chegam até nós graças à ocorrência de ressonância electrónica em várias fases da sua produção e transmissão. Estou assim a dar forma à ideia de a ressonância (um material musical) estar em todo o lado no mundo electrónico. Seguindo esta direcção tive, pois, que pensar num dispositivo musical que me permitisse tocar ressonância, em vez de tocar "sons". Para trabalhar com ressonância pura num domínio puramente electrónico, precisaria de um circuito vazio, que não tivesse nada a entrar do exterior e não processasse nada a não ser a si próprio. Algo que pudesse usar para sondar o espectro de audio, pesquisando frequências, aumentando e enformando larguras de banda. O " loop" contínuamente se alimenta a si próprio ao mesmo tempo que se auto-digere. Assemelha-se a uma viagem por um campo sonoro, sempre desdobrando-se em novas paisagens.

Rafael Toral

 

 

sound mind sound body

Sound Mind Sound Body, de Rafael Toral, é o primeiro disco de música ambiental propriamente dita tocada por um português. Outros haverá, com certeza, que poderão ser assim classificados, mas são-no apenas depois de serem outras coisas. Não é isso, porém, que lhe dá uma importância especial na cena portuguesa. O guitarrista e manipulador de electrónicas não se limita a adequar-se a um estilo ou um género definidos. Aplica os seus postulados para os questionar, alterando-os pela raíz e conduzindo-os a desenlaces inéditos e imprevisíveis. Na origem do seu peculiar modo de estar na música encontramos Sound Mind Sound Body, um disco que reúne trabalhos de uma primeira fase (1987-1992) em que Rafael Toral se dedicou a desconstruir e reavaliar parte do legado de Brian Eno na área da música ambiental, introduzindo novos dados. O álbum de estreia a solo deste ex-Pop dell'Arte é assim como que um ponto de partida para a exploração de territórios desconhecidos, a concretizar numa série de registos que Toral tenciona lançar num futuro pouco distante. Trabalho único e irrepetível, Sound Mind Sound Body não reflectirá talvez a multiplicidade de abordagens sónicas que o músico vem desenvolvendo, mas é uma excelente introdução ao seu tão particular universo. A música portuguesa ganhou um novo inventor de sons.

Press release, Rui Eduardo Paes, 1994

 

the complete no noise reduction

Eis um disco do qual tudo o que se disser pode ser mal interpretado. The complete No Noise Reduction pretende ser a história (in)completa dos No Noise Reduction, núcleo de agitação sonora constituído por João Paulo Feliciano, dos Tina and The Top Ten e Rafael Toral, ex-Pop ddell'Arte e produtor do até À data único álbum dos Tina. Este é uma espécie de manual de manipulação sonora, estilo "faça você mesmo". DE samples dos Stereo MCs a Jimi Hendrix, passando por cães a ladrar, leitores de CD propositadamente avariados, guitarras tocadas com os pés e um single da Patti Smith partido e colado ao contrário, por aqui passa de tudo, mesmo os Tina and The Top Ten a tocarem raivosamente durante 60 milésimos de segundo. Podíamos dizer que este é um disco experimental, mas isso seria mais ou menos o mesmo que dizer qoe o cavalo é um quadrúpede. Inqualificável e por vezes bastante divertido.

Isilda Sanches, Diário de Notícias, Jun. 95



O início de Electric Babyland/ Lullabies remonta a 1999, ano em que a editora holandesa Meew Musak editou as três peças que compõem Lullabies num sete polegadas. Mais recentemente, e na sequência do interesse demonstrado pela Tomlab, Rafael Toral foi desenvolvendo um outro conjunto de composições com o intuito de criar juntamente com Lullabies um contexto alargado que permitisse a edição de um longa duração, o que aconteceu este ano. A estas Toral intitulou-as de Electric Babyland, e resultam de experiências que o músico lisboeta vinha apresentando ao vivo desde o ano passado. Embora em última análise a coerência deste lançamento não seja posta em causa, são claramente audíveis os dois trabalhos distintos no conjunto do álbum, pelo que não faz muito sentido abordar um enquanto complemento formal do outro, mas mais enquanto duas inspiradas experiências sobre os mesmos pressupostos.
Toral, numa entrevista mais ou menos recente, assumia a sua música como ambiental – não no sentido estilístico mas enquanto algo que "acomodava diferentes níveis de atenção". Electric Babyland é paradigmático deste ponto de vista. O ouvinte facilmente se demite da audição consciente mas a abstracção total é uma impossibilidade perante a natureza desafiante de Electric Babyland, construída a partir de sons criados com uma caixa de música e um sistema modular analógico, que se perpetuam no espaço, para lá da racionalidade.
Por seu lado, Lullabies corresponde na perfeição ao nome. Três composições de uma delicadeza etérea, centrada na ressonância, sem tantas camadas sonoras mas mesmo assim longe de qualquer interpretação linear. Lullabies deturpa a noção do tempo, terminando da forma mais apropriada, num longo drone que no sete polegadas se prolonga ad infinitum.
Electric Babyland / Lullabies envolve o ouvinte numa dormência serena, embalado pela extrema sensibilidade de Rafael Toral, no que se traduz numa experiência verdadeiramente memorável, a repetir todas as noites.

Manuel Poças, a puta da subjectividade, 2003